No café:
- Os velhinhos são um problema.
- É... eu sei, o rombo da previdência é enorme. Não dá, precisamos de uma reforma!
- E urgente!
- Urgente.
No clube:
- Imposto?! Ainda bem que não tem mais essa CPMF!
- Foi um alívio!
- Põe alívio nisso... eu ia quebrar daquele jeito!
- Eu já estou quebrado. Esse sistema tributário é confuso e oneroso demais! Ta tudo errado! Que façam uma reforma!
No trabalho:
- Você viu ontem?
- O que?
- Aquele político lá... O tal do “Zé da feira”. Mudou de partido... Hoje em dia ninguém respeita mais nada, é tudo uma confusão só. Por isso que tem toda essa corrupção. Esse sistema político é muito fajuto!
- É.
Não importa onde, quando e nem como, o que importa é mudar, reformar. Sem entrarmos no mérito das reformas política, tributária e da previdência, discutidas com muito ímpeto pela sociedade brasileira, deixemos um espaço para uma discussão que a princípio parece um tanto excêntrica, mas surge como uma reflexão crítica das manifestações sociais contemporâneas: a reforma cultural. Como assim? Por que reformar a cultura? A cultura é objeto de uma reforma ou simplesmente a expressão natural de um povo, algo imutável?
Antes de defender qualquer ponto de vista, deve-se questionar qual a importância da cultura e o que ela representa afinal. A resposta a esse questionamento pode vir através de um estudo sociológico, antropológico, econômico, político, enfim, de várias esferas da ciência e do conhecimento humano. Um ponto em comum, no entanto, provavelmente será no que diz respeito à forte influência que a cultura exerce nas diversas formas de relações humanas, seja em que esfera for. Essa influência, enraizada no passado, na história, nos costumes e nas tradições de um determinado povo, é perceptível através do desenvolvimento desse mesmo povo e da análise de suas ações e escolhas. A cultura, portanto, possui um caráter de representação da vontade coletiva, além de ser a base para a tomada das mais diversas decisões e propostas de mudança social. Assim, fica clara a importância da cultura no desenvolvimento da sociedade.
O Brasil, país de uma diversidade cultural imbatível, possui múltiplas faces, mas é uma sociedade única, organizada através de um Estado soberano. Seja nordestino, carioca, paulista ou capixaba, negro, índio, branco ou amarelo, homem ou mulher, o brasileiro deve perceber que antes de tudo é um brasileiro. Essa percepção de integridade e coesão parece não existir fortemente. Parece que o quebra-cabeça não se encaixa, que há peças demais. Essa falta de coesão nos leva a uma atomização e falta de identificação social, possibilitando e facilitando um domínio cultural externo, vindo principalmente dos EUA. Não que seja apenas um clichê dizer que esse domínio cultural e ideológico estado-unidense é nocivo, visto que a cultura desse país possui muitas riquezas e é digna de reconhecimento, mas o que ocorre no Brasil é algo que soa ridículo. Por que não questionar o livre arbítrio, a possibilidade de escolha? Por que aceitar a imposição de uma massa cultural (puramente comercial) impertinente? Falta educação e acesso a fontes alternativas de entretenimento? Não! E sabem por quê? Porque estamos falando principalmente da classe média e da classe alta, aquelas que têm toda a oportunidade de criticar, escolher e mudar, mas, no fim das contas, é dominada.
Surge, a partir daí, um cenário estranho aos interesses nacionais. As divisões dentro do próprio país crescem e geram mais cisão e conflitos de interesses. A quem interessa a reforma tributária? Como ela será feita? E a previdência social? Constitui-se um fardo pra quem? A princípio, nada disso importa. Importa antes de tudo o interesse nacional, os interesses de todos, por mais que sejam conflitantes. E como resolver esse paradoxo? O primeiro passo, talvez, seria “ampliar a mente” dos mais abonados (devido a suas influências econômicas, políticas e sociais) e faze-los perceber que as possibilidades são maiores e mais diversas do que aparentam ser, que não existe só a coca-cola e o próprio umbigo. Os interesses convergem quando se buscam soluções para o desenvolvimento sustentável da sociedade como um todo. Todos podem ganhar no fim.
A ruptura e o preconceito sociocultural só corroem o país, derrubando as perspectivas de união e desenvolvimento. Deve-se procurar um meio termo quando misturamos as diversas culturas brasileiras, um termo que se traduza em “Brasil”. Para isso, devemos contar com a mudança da grande massa social que contempla uma cultura hipócrita e obsoleta, cultura essa que não representa a verdadeira expressão cultural dessa sociedade. Em suma, como fazer as mais diferentes reformas se não reformarmos antes a cultura nacional, aquela que divide, que se deixa dominar e que expressa superficialmente a pseudoliberdade de um povo? A integração, a crítica e a percepção de igualdade e de novas possibilidades são as formas de se buscar um novo paradigma nacional, uma nova manifestação cultural. Uma sociedade não mudará suas instituições se não mudar sua própria face. Tentemos unir as diversidades culturais e de pensamento em um único projeto nacional, e que a classe média e alta perceba que o culto ao egoísmo e ao fast-food cultural são nocivos a todos.
Na universidade:
- Por que resolveu fazer economia?
- Para ganhar dinheiro.
Oz Iazdi
segunda-feira, 24 de março de 2008
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Um comentário:
Você me deu um tapa na cara quando me falou que tenho uma visão romântica das coisas...me ensinou que tudo neste mundo está em constante evolução...
Um Ser Humano que não evoluí é apenas um ser que passou por aqui e não deixou o seu legado...obrigada por me abrir os olhos!
Seu texto não é para qualquer um...
Me orgulho de você! Espero viver muito para aprender contigo!!!
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