
O filme Edukators reproduz o grande debate vivido no século XX, década de 90, e no início do século XXI, onde o a utopia da revolução socialista volta à tona em um momento de grande desilusão com um sistema alternativo ao capitalismo. E o porquê dessa desilusão? Para explicarmos tal desilusão, precisamos antes analisar como o mundo caminhou para onde está atualmente e quais foram as principais revoluções que se passaram, com o intuito de mudar esse mundo e torná-lo mais humano e justo.
A revolução francesa pode ser vista como a primeira revolução social de impacto mundial e repercussões nos mais longínquos lugares de nosso planeta. Os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade foram perdidos no meio do caminho para se tornarem apenas igualdade, fraternidade e liberdade segundo os interesses da burguesia da época, embora tenha sido fonte de inspiração para diversas revoluções posteriores e muitos discursos recentes.
Dando um salto no tempo, chegamos à revolução russa de 1917. Obviamente, essa não foi a única revolução social nesse intervalo de tempo, mas para fins de nossa análise foi a mais relevante, mundialmente falando, dentre as outras. Temos, pela primeira vez, um país inteiro sob a lógica socialista, mas que com o passar dos anos e o acirramento das corridas armamentista e espacial, torna-se refém futuro dos interesses do capital, até que entra em colapso seu sistema no final dos anos 80. Nesse meio tempo temos revoluções na China, Vietnã e Angola, para citarmos algumas, com caráter socialista, mas que se desvirtuaram também.
Toda essa revisão histórica, aliado à juventude lutadora e crítica feroz do sistema capitalista dos anos 60 e 70 que em muitos casos também se "desvirtuaram" de seus ideais em função de outros interesses, constituem pano de fundo do filme e lançam algumas perguntas, tais como: O que é ser revolucionário hoje em dia?, Como fazer essa luta? , Como vencer o comodismo e a alienação da mídia sobre nós?
Os jovens, Jan, Jules e Peter fazem parte da nova juventude revolucionária, reféns de um mundo condicionado ao comodismo imposto tanto pela desilusão vivida com gerações passadas tanto quanto com revoluções passadas e, por isso, buscam uma forma de protesto inédita e que mexa com o psicológico do sistema capitalista.
A forma de protesto por eles adotada é, então, inusitada. Invadir mansões de famílias ricas, desarrumar todos os móveis e deixar um bilhete ameaçador. Tal protesto criaria uma espécie de pânico na burguesia e faria com que ela se sentisse ameaçada, facilitando que os pilares que sustentam o sistema se rachem.
Por essa maneira de agir eles se auto-intitulam "Os Educadores", fato que podemos relacionar com o conceito durkhaimiano de anomia social. Os educadores se constituem como uma doença que busca destruir a sociedade capitalista. Essa doença tenta ganhar força a fim de deixarem de ser apenas um fato social comum e serem uma anomia social, onde as taxas de "educadores" espalhados pela sociedade aumentaria significativamente, como um vírus que se propaga dentro de um sistema orgânico tentando consumi-lo e chega a um ponto onde se torna um problema sério.
O conceito da dialética pode ser empregado aqui também para tentarmos explicar os educadores. O sistema capitalista seria nossa tese, sendo os educadores a antítese dessa tese, que convive dentro do sistema por um tempo e quando ganha força suficiente quebra com essa tese, revelando-nos uma síntese, onde um sistema novo e antagônico à tese e a antítese se constituirá. Esse novo sistema, de cunho socialista, se constitui na síntese e a luta dos jovens educadores a antítese.
Outro aspecto importante do filme é o personagem Hardenberg, que a priori nos parece como um mero empresário com ideais tradicionalmente neoliberais, mas que posteriormente descobre-se que ele na verdade foi um dos mais importantes líderes estudantis críticos ao sistema capitalista. Tal fato causa espanto nos jovens seqüestradores e lançam a pergunta: como alguém com os ideais defendidos por Hardenberg na juventude pode se tornar um expoente máximo do sistema que tanto ele criticava?
Por esse ponto, vemos como que as forças e pilares do sistema capitalista são fortes e persuasivas. A influência cultural que nos é passada é tamanha, que mesmo um crítico do sistema pode se ver como um importante aliado desse sistema em um futuro não tão distante. A propaganda capitalista, veiculada pela mídia e pelos laços culturais a que somos criados e absorvemos são as principais maneiras de destruírem ideais. A cena em que Hardenberg está lavando roupa no cativeiro é vital para explicar isso. Essa propaganda e a cultura capitalista são instrumentos de coerção social contra possíveis movimentos contrários ao sistema vigente.
Alguns conceitos marxistas, como o de super-estrutura, aparecem no filme mostrando como realmente são frutos das relações de produção. No caso, Jules foi punida a pagar uma dívida, por causa de uma batida de carro, para um rico empresário que sequer precisava de outro carro, pois tinha diversos outros na garagem, e, portanto, a justiça foi justa aos interesses de quem é o grande beneficiado das relações produtivas.
A mercadoria fetichizada, conceito elaborado por Marx, aparece no filme em diversos momentos, mas principalmente quando Jan fala para Jules da mercantilização dos símbolos de protesto contra o capitalismo no passado e também em Hardenberg, onde ele trabalha para comprar produtos que almeja, mesmo que ele não necessite deles. Como carros importados diversos, iates, casas de campo, etc. Os jovens criticam esse consumismo desenfreado que no sistema capitalista é ordem vital. Os produtos na sociedade são tratados como se fossem coisas com poderes especiais, que fossem mudar nossas vidas e isso nos incentiva a adquiri-los, fazendo nossa existência basicamente fruto da aquisição de mais produtos. Nesse ponto, o personagem de Hardenberg é essencial na abordagem, pois ele adquiriu produtos por puro status social.
O final do filme também se revela surpreendente, ainda mais pela frase deixada para os policiais na parede do quarto dos jovens: "Algumas pessoas nunca mudam". Não sabemos se foi direcionada ao passado de Hardenberg, e por isso ele no fundo ele ainda nutre sentimentos revolucionários, ou se foi direcionada ao Hardenberg atual, onde uma pessoa corrompida dificilmente não deixará de ser corrompida. Além disso, o filme não termina com um clichê de "ideais mortos" ou "revolução apagada pela coerção social", pois os jovens estão se preparando para realizar o plano de Jan e desativar os satélites de TV da Europa, no iate de Hardenberg, alimentando ainda mais a incógnita em relação à frase do apartamento.
De fato, Edukators é um filme interessante, pois traz a tona debates que podem passar despercebidos atualmente, seja pela alienação social, seja pelo comodismo social fruto de desilusões passadas. Mas o grande ponto chave do filme é a proposta de uma alternativa a essa situação, uma alternativa à revolução, que é através dos educadores. Essa alternativa soa muito parecida com o que Marx e Engels tratam no Manifesto Comunista: "O proletariado, a camada mais baixada sociedade atual, não pode erguer-se, recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a sociedade oficial". Ou seja, somente através de uma reestruturação ideológica que se pode questionar o sistema vigente.
Essa reestruturação ideológica passa também por uma espécie de guerra psicológica contra a burguesia dominante, onde as ações dos educadores fariam com que a "paz e segurança" vividos e sentidos por essa classe social seja ameaçada pelos verdadeiros sentimentos da maioria da população, abrindo espaço para a destruição do sistema através das rachaduras provocadas por essas ações.
Leonardo Segura





