terça-feira, 29 de abril de 2008

Análise do filme Edukators


O filme Edukators reproduz o grande debate vivido no século XX, década de 90, e no início do século XXI, onde o a utopia da revolução socialista volta à tona em um momento de grande desilusão com um sistema alternativo ao capitalismo. E o porquê dessa desilusão? Para explicarmos tal desilusão, precisamos antes analisar como o mundo caminhou para onde está atualmente e quais foram as principais revoluções que se passaram, com o intuito de mudar esse mundo e torná-lo mais humano e justo.
A revolução francesa pode ser vista como a primeira revolução social de impacto mundial e repercussões nos mais longínquos lugares de nosso planeta. Os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade foram perdidos no meio do caminho para se tornarem apenas igualdade, fraternidade e liberdade segundo os interesses da burguesia da época, embora tenha sido fonte de inspiração para diversas revoluções posteriores e muitos discursos recentes.
Dando um salto no tempo, chegamos à revolução russa de 1917. Obviamente, essa não foi a única revolução social nesse intervalo de tempo, mas para fins de nossa análise foi a mais relevante, mundialmente falando, dentre as outras. Temos, pela primeira vez, um país inteiro sob a lógica socialista, mas que com o passar dos anos e o acirramento das corridas armamentista e espacial, torna-se refém futuro dos interesses do capital, até que entra em colapso seu sistema no final dos anos 80. Nesse meio tempo temos revoluções na China, Vietnã e Angola, para citarmos algumas, com caráter socialista, mas que se desvirtuaram também.
Toda essa revisão histórica, aliado à juventude lutadora e crítica feroz do sistema capitalista dos anos 60 e 70 que em muitos casos também se "desvirtuaram" de seus ideais em função de outros interesses, constituem pano de fundo do filme e lançam algumas perguntas, tais como: O que é ser revolucionário hoje em dia?, Como fazer essa luta? , Como vencer o comodismo e a alienação da mídia sobre nós?
Os jovens, Jan, Jules e Peter fazem parte da nova juventude revolucionária, reféns de um mundo condicionado ao comodismo imposto tanto pela desilusão vivida com gerações passadas tanto quanto com revoluções passadas e, por isso, buscam uma forma de protesto inédita e que mexa com o psicológico do sistema capitalista.
A forma de protesto por eles adotada é, então, inusitada. Invadir mansões de famílias ricas, desarrumar todos os móveis e deixar um bilhete ameaçador. Tal protesto criaria uma espécie de pânico na burguesia e faria com que ela se sentisse ameaçada, facilitando que os pilares que sustentam o sistema se rachem.
Por essa maneira de agir eles se auto-intitulam "Os Educadores", fato que podemos relacionar com o conceito durkhaimiano de anomia social. Os educadores se constituem como uma doença que busca destruir a sociedade capitalista. Essa doença tenta ganhar força a fim de deixarem de ser apenas um fato social comum e serem uma anomia social, onde as taxas de "educadores" espalhados pela sociedade aumentaria significativamente, como um vírus que se propaga dentro de um sistema orgânico tentando consumi-lo e chega a um ponto onde se torna um problema sério.
O conceito da dialética pode ser empregado aqui também para tentarmos explicar os educadores. O sistema capitalista seria nossa tese, sendo os educadores a antítese dessa tese, que convive dentro do sistema por um tempo e quando ganha força suficiente quebra com essa tese, revelando-nos uma síntese, onde um sistema novo e antagônico à tese e a antítese se constituirá. Esse novo sistema, de cunho socialista, se constitui na síntese e a luta dos jovens educadores a antítese.
Outro aspecto importante do filme é o personagem Hardenberg, que a priori nos parece como um mero empresário com ideais tradicionalmente neoliberais, mas que posteriormente descobre-se que ele na verdade foi um dos mais importantes líderes estudantis críticos ao sistema capitalista. Tal fato causa espanto nos jovens seqüestradores e lançam a pergunta: como alguém com os ideais defendidos por Hardenberg na juventude pode se tornar um expoente máximo do sistema que tanto ele criticava?
Por esse ponto, vemos como que as forças e pilares do sistema capitalista são fortes e persuasivas. A influência cultural que nos é passada é tamanha, que mesmo um crítico do sistema pode se ver como um importante aliado desse sistema em um futuro não tão distante. A propaganda capitalista, veiculada pela mídia e pelos laços culturais a que somos criados e absorvemos são as principais maneiras de destruírem ideais. A cena em que Hardenberg está lavando roupa no cativeiro é vital para explicar isso. Essa propaganda e a cultura capitalista são instrumentos de coerção social contra possíveis movimentos contrários ao sistema vigente.
Alguns conceitos marxistas, como o de super-estrutura, aparecem no filme mostrando como realmente são frutos das relações de produção. No caso, Jules foi punida a pagar uma dívida, por causa de uma batida de carro, para um rico empresário que sequer precisava de outro carro, pois tinha diversos outros na garagem, e, portanto, a justiça foi justa aos interesses de quem é o grande beneficiado das relações produtivas.
A mercadoria fetichizada, conceito elaborado por Marx, aparece no filme em diversos momentos, mas principalmente quando Jan fala para Jules da mercantilização dos símbolos de protesto contra o capitalismo no passado e também em Hardenberg, onde ele trabalha para comprar produtos que almeja, mesmo que ele não necessite deles. Como carros importados diversos, iates, casas de campo, etc. Os jovens criticam esse consumismo desenfreado que no sistema capitalista é ordem vital. Os produtos na sociedade são tratados como se fossem coisas com poderes especiais, que fossem mudar nossas vidas e isso nos incentiva a adquiri-los, fazendo nossa existência basicamente fruto da aquisição de mais produtos. Nesse ponto, o personagem de Hardenberg é essencial na abordagem, pois ele adquiriu produtos por puro status social.
O final do filme também se revela surpreendente, ainda mais pela frase deixada para os policiais na parede do quarto dos jovens: "Algumas pessoas nunca mudam". Não sabemos se foi direcionada ao passado de Hardenberg, e por isso ele no fundo ele ainda nutre sentimentos revolucionários, ou se foi direcionada ao Hardenberg atual, onde uma pessoa corrompida dificilmente não deixará de ser corrompida. Além disso, o filme não termina com um clichê de "ideais mortos" ou "revolução apagada pela coerção social", pois os jovens estão se preparando para realizar o plano de Jan e desativar os satélites de TV da Europa, no iate de Hardenberg, alimentando ainda mais a incógnita em relação à frase do apartamento.
De fato, Edukators é um filme interessante, pois traz a tona debates que podem passar despercebidos atualmente, seja pela alienação social, seja pelo comodismo social fruto de desilusões passadas. Mas o grande ponto chave do filme é a proposta de uma alternativa a essa situação, uma alternativa à revolução, que é através dos educadores. Essa alternativa soa muito parecida com o que Marx e Engels tratam no Manifesto Comunista: "O proletariado, a camada mais baixada sociedade atual, não pode erguer-se, recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a sociedade oficial". Ou seja, somente através de uma reestruturação ideológica que se pode questionar o sistema vigente.
Essa reestruturação ideológica passa também por uma espécie de guerra psicológica contra a burguesia dominante, onde as ações dos educadores fariam com que a "paz e segurança" vividos e sentidos por essa classe social seja ameaçada pelos verdadeiros sentimentos da maioria da população, abrindo espaço para a destruição do sistema através das rachaduras provocadas por essas ações.

Leonardo Segura

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A História da Arqueologia - A Arqueologia Inglesa


A Arqueologia Inglesa foi constituída durante o Imperialismo, e foi muito importante para definir o “propósito imperialista da Inglaterra”.[i] Isso auxiliou as novas correntes intelectuais a definir e a sustentar esse imperialismo, que foi feito através da construção de identidades opostas , gerando uma idéia de ascendência cultural.
Esta vertente científica, no início, trabalhou para criar um mito de origem que deveria ser diferente do mito da origem teutônica (que não chega a desaparecer). Este novo mito foi criado a partir da idéia em que o Império Romano, quando chegou à Britânia, teria trazido a civilização aos bretões, cuja presença tinha sido detectada no sul da chamada Britânia. Aliás, localizar os povos que eram descritos nos documentos e que deram origens às atuais nações é uma das tarefas dessa ciência desde que ela começou a esboçar-se, no século XVI.
Nos séculos XIX e XX, a Arqueologia Inglesa passou a proporcionar histórias que culminariam com a criação de uma Identidade Nacional, história contada através dos achados arqueológicos. Assim, ligar identidades étnicas a achados arqueológicos e trazer um sentimento de pertencimento era extremamente importante para a época: afirmar sua identidade sobre a do “outro” era à base do imperialismo inglês.
Dessa forma, foi criada a teoria da Romanização, na qual interpretava que Roma teria expandido para levar seu modelo de civilização (herdado pelos europeus) aos nativos. Isso foi muito importante para a Inglaterra durante os séculos XIX e XX: o conceito de Romanização trazia imagens opostas entre os romanos (“civilizados”) e os nativos (“não-civilizados”), o que ajudou a Inglaterra a justificar o imperialismo sobre a Índia, por exemplo.
Com isso, um paralelismo foi criado entre os “civilizados” (romanos e ingleses) e os “não-civilizados” (bretões e indianos), que não era muito preciso, mas que teve uma grande importância. Afinal, este conceito, juntamente com o paralelismo criado em seu entorno, trouxe mais uma justificativa para o imperialismo: levar a civilização, herdada dos romanos, para o mundo.
Esse modelo de oposição, embora importante, não foi o único. Outro modelo de interpretação, que pregava mistura racial entre romanos e bretões, foi formado, entretanto, ele só ganhou importância na época da Primeira Guerra Mundial. Nas décadas de 1930-40 o Império Romano passa a ser visto como “uma ameaça à segurança nacional”, um “despotismo estrangeiro”.[ii]
Dessa forma, a Arqueologia inglesa surge para justificar o imperialismo e
Constituir uma identidade nacional (anglicidade) através da criação do mito de origem. Esta ciência teve um grande valor em trabalhos acadêmicos e as imagens criadas por eles tiveram uma grande repercussão popular. O aspecto eurocêntrico da Arqueologia inglesa deve ser, como diz Hingley, um objeto de crítica, mas deve-se considerar sua importância para a formação dos Estados nacionais.



[i]HINGLEY, Richard. Concepções de Roma: uma perspectiva inglesa. In FUNARI, Pedro Paulo Abreu (organizador e revisor técnico). REPENSANDO O MUNDO ANTIGO; Série Textos Didáticos, nº47, 2ª edição (revisada e ampliada) ,IFCH/UNICAMP. p.28
[ii] HINGLEY, Richard. Op. Cit. p.53



Arqueóloga Marina



Charge


terça-feira, 8 de abril de 2008

Correntes Ortodoxas e a Onipotência do BC


Até quando ficaremos presos nessas correntes do pensamento ortodoxo? Ninguém agüenta mais esperar as proclamações dos “deuses” do Banco Central com medo de que os juros aumentem. Parece até que o BC é uma espécie de entidade cósmica que se ficar gripada todos nós sofreremos desgraças tremendas como meros lacaios das vontades e humores deste grande ser....oh Banco Central.
A desculpa desta vez é um possível aumento da inflação oriundo de uma pressão da demanda. É certo que temos a demanda aquecida, o crédito se expandindo e o consumo crescendo no país todo. A pergunta é: que mau à nisso? Vivemos décadas com nosso consumo apertado com taxas de crescimento medíocres e juros estratosféricos nada mais justo termos a liberdade de usufruir dos benefícios do Capitalismo (mesmo que questionáveis) após tanto aperto.
Tudo bem, a demanda pode provocar inflação sim. Porém só consigo visualiza-la em casos pontuais, como o caso dos gêneros alimentícios que tem tido um enorme aumento da demanda internacional em virtude do alto crescimento dos países emergentes, com destaque para Índia e China. No que diz respeito ao setor de bens de consumo duráveis e não duráveis acho pouco provável. O consumo das famílias no ultimo trimestre de 2007 apresentou crescimento na casa dos 6% enquanto a Formação Bruta de Capital Fixo cresceu no mesmo período 12%. Isso pressupõe uma ampliação considerável de investimentos produtivos que seriam diretamente afetados por um aumento na taxa base de juros.
Ainda assim somos reféns do BC, espero estar enganado mas prevejo o pior, ou seja, um banho de água fria no setor produtivo. Dentro deste quadro só nos resta rezar ao onipotente BC: “Banco Central que estais em Brasília, santificada seja a vossa taxa, traga a nós o vosso crescimento....”.

Bruno H. Cavasana

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A História da Arqueologia


Uma visão geral
A Arqueologia, como ciência, nasce durante o auge do Imperialismo, no século XIX. Esta nasce já com um nome pretensioso: a palavra Arqueologia significa “o relato das coisas antigas”.[i]
Sua própria nomenclatura levou o senso comum a pensar que a Arqueologia estudaria apenas “coisas” ou “artefatos”. Entretanto, esta ciência estuda, aquilo que é denominado ecofato e biofato (“vestígios do meio ambiente e restos de animais associados aos seres humanos” [ii]) e, também, o próprio homem e sua relação na sociedade.
A primeira grande mudança nesta ciência veio apenas na década de 1960, com uma proposta “arqueológico-antropológica”,[iii] conhecida como New Archaeology. Este novo modelo teórico tratava a Arqueologia não apenas como uma ciência que só recuperava os resquícios do passado, mas a tratava como “o estudo da cultura material que busca compreender as relações sociais e as transformações na sociedade”.[iv]
É claro que a Arqueologia não surgiu de maneira uniforme, o que explica suas várias diferenças pelo mundo. Desta forma, especificar o surgimento de uma ou outra vertente arqueológica significa entender em que contexto histórico esta ciência surgiu e como ela foi utilizada durante o tempo. Além disso, há uma divisão geral, na qual separa a Arqueologia Estadunidense da Européia.
A Arqueologia Americana desenvolveu-se a partir da antropologia, que estava preocupada em estudar os nativos da região. Esta vertente científica teve um grande desenvolvimento no século XIX, que resultou na criação da chamada Arqueologia-histórica, que foi definida como o “estudo da Arqueologia do “mundo moderno” (a partir do século XV)”.[v]
A Arqueologia Européia, diferentemente da estadunidense, surgiu derivada da filologia e da história, no século XIX, conhecida como Arqueologia Clássica, por estudar os vestígios da Civilização Ocidental. A Arqueologia Européia também criou outras vertentes, hoje conhecidas como Arqueologia Egípcia e Arqueologia Bíblica, para citar apenas dois exemplos.

[i][i] FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Arqueologia; 2ª edição, São Paulo, Contexto, 2006. p. 13. Grifo meu.
[ii] FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Op. Cit. p. 14
[iii] FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Op. Cit. p. 17
[iv] FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Op. Cit. p. 15
[v] FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Op. Cit. p. 23


Arqueóloga Marina

sábado, 5 de abril de 2008

Chegaremos lá?

O Brasil enfrentou durante a década de 80 uma ruptura na trajetória do crescimento acentuado da economia no pós-guerra e na expansão do PIB per capita vigente desde os anos 50. A economia brasileira nunca havia passado por uma experiência de redução absoluta no nível de produção industrial até então. O grande sujeito da década foi a crise da dívida externa decorrente do rápido crescimento da economia brasileira até o final da década de 70.
O governo brasileiro adotou medidas protecionistas para gerar saldos positivos na Balança Comercial Nacional. Além das tarifas de importação já antes existentes, a indústria passou a receber subsídios para exportação e a se beneficiar das abruptas desvalorizações da moeda nacional e restrições à importação.
Apesar de todos os incentivos do governo, os estímulos às exportações não foram suficientes para gerar saldos positivos na Balança Comercial Brasileira, sendo necessário recorrer às restrições do ritmo de atividades econômicas. O saldo comercial foi obtido com estagnação, inflação alta e deterioração das finanças públicas, devido ao pagamento dos serviços da dívida interna e externa.
Embora a taxa de investimento tenha sido bastante baixa, não ocorreu um processo de desindustrialização industrial em larga escala, mantendo-se a estrutura produtiva. Essa não desisdustrialização permitiu que o emprego oscilasse juntamente com o nível da atividade econômica
Todo esse movimento da economia afetou extremamente o mercado de trabalho urbano, interrompendo o crescente assalariamento e formalização da estrutura ocupacional. Através da queda relativa do emprego formal, houve aumento do número de trabalhadores por conta própria e diminuição do poder de compra do trabalhador. A economia em estagnação não gerou oportunidades ocupacionais necessárias para absorver o aumento da População Economicamente Ativa (PEA) e o processo inflacionário corroeu o poder de compra de trabalhador.
Além disso, as desigualdades de renda existentes desde o início da industrialização no país passaram por um agravamento, aumentando a pobreza do país. Ocorreu uma proliferação do emprego formal de baixa remuneração, e houve uma informalização do mercado de trabalho, principalmente, no setor terciário.
As ocupações que mais cresceram aparentam ter uma menor necessidade de qualificação e tendem a remunerar abaixo das ocupações que estão sendo destruídas. Portanto, ocorre no Brasil um processo de precarização das relações de trabalho, com destruição de empregos de melhores salários.
Se o país pretende caminhar para uma estrutura produtiva moderna é imprescindível investimentos em universidades de boa qualidade, tecnologia e energia. O Brasil tem capacidade para atingir esse grau de modernização, mas desde que o governo se comprometa seriamente a realizar as medidas necessárias para tais mudanças.

Mariana Penteado

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Índio que acordou branco e o branco que acordou índio


Uma terra colorida pelo verde-sangue das matas brasileiras. Um homem, com ares de eterno filho, pinta seu rosto e apronta seu arco. Dois quilômetros adiante, uma espessa clareira denuncia que o inimigo está presente, pelo menos por enquanto. O conflito é iminente e a chuva, no fim da tarde, tenta sem sucesso apagar o fogo que se instala. Está tudo pronto para a débâcle. O homem de rosto pintado avança com sua arma e seu bando, alastrando o ar com um ignóbil brado de posse. Ali tudo é seu, ele pensa.
Do outro lado, outro homem empunha sua arma e agita os foliões que estão presentes. Hoje é dia de festa, e nesse lugar, onde nada acontecia, zumbe agora um assovio de desequilíbrio. Os foliões, armados com facões e rifles, marcham em uma linha tênue através da clareira pisando nos restos da mata, que agora descansa inerte no chão. O grito, semelhante ao brado do inimigo, reivindicava a posse, a terra.
Em determinado momento, como pelo desígnio de um destino antevisto, os dois grupos se encontram. A marcha é interrompida em ambos os lados. O cenário evidencia o embate, cada bando com seu líder à frente. Enquanto de um lado alguns homens seminus erguem seus braços e entoam um canto de guerra, do outro lado os personagens parecem imitá-los, de tal forma que todos se confundem. Apesar de tão antagônicos, quão iguais se parecem. Eis que há um silêncio. Os dois líderes dão alguns passos e se encontram, quase tocando seus semblantes. Seus pulmões arfantes fazem da respiração uma denuncia em causa própria. O rei dos foliões abre a boca e pronuncia uma espécie de acordo. O outro, apesar do intimidante rosto pintado, apenas anui e gesticula em gesto de aprovação. Está feito, agora todos podem voltar para casa. Não houve muita festa, mas agora parece que há uma legítima paz envolvendo o ambiente.
Amanhã será o dia das extrações para uns e do ritual para outros. Os foliões continuarão seus ofícios floresta adentro, enquanto o séqüito nativo se reconfortará em acompanhar seu líder rumo à outro lugar. Não houve guerra, não houve luta. Não houve nada além de um acordo. Os foliões e o bando de homens seminus não entenderam direito o que se passou, mas acreditam em algo bom. Os dois líderes, no entanto, sorriem e festejam sozinhos na noite sem lua que se apresenta, até caírem no sono.
Na manhã seguinte, quando todos acordam, percebem que algo está diferente: não há nuvens no céu e nem árvores na terra. Acham logo que é brincadeira de deus ou algum tipo de sonho. Mas nada muda durante o dia inteiro e eles acabam intuindo que é tudo obra do homem, de um mesmo homem. O índio do rosto pintado percebe, então, que agora é um homem branco, e o homem branco percebe que é um índio. O interesse havia guiado os diferentes ideais por um mesmo caminho, destruindo tudo o que havia na frente. Agora não há mais mata, ideais ou diferenças, há apenas uma coisa: o homem.

Oz Iazdi

quarta-feira, 2 de abril de 2008