
Uma terra colorida pelo verde-sangue das matas brasileiras. Um homem, com ares de eterno filho, pinta seu rosto e apronta seu arco. Dois quilômetros adiante, uma espessa clareira denuncia que o inimigo está presente, pelo menos por enquanto. O conflito é iminente e a chuva, no fim da tarde, tenta sem sucesso apagar o fogo que se instala. Está tudo pronto para a débâcle. O homem de rosto pintado avança com sua arma e seu bando, alastrando o ar com um ignóbil brado de posse. Ali tudo é seu, ele pensa.
Do outro lado, outro homem empunha sua arma e agita os foliões que estão presentes. Hoje é dia de festa, e nesse lugar, onde nada acontecia, zumbe agora um assovio de desequilíbrio. Os foliões, armados com facões e rifles, marcham em uma linha tênue através da clareira pisando nos restos da mata, que agora descansa inerte no chão. O grito, semelhante ao brado do inimigo, reivindicava a posse, a terra.
Em determinado momento, como pelo desígnio de um destino antevisto, os dois grupos se encontram. A marcha é interrompida em ambos os lados. O cenário evidencia o embate, cada bando com seu líder à frente. Enquanto de um lado alguns homens seminus erguem seus braços e entoam um canto de guerra, do outro lado os personagens parecem imitá-los, de tal forma que todos se confundem. Apesar de tão antagônicos, quão iguais se parecem. Eis que há um silêncio. Os dois líderes dão alguns passos e se encontram, quase tocando seus semblantes. Seus pulmões arfantes fazem da respiração uma denuncia em causa própria. O rei dos foliões abre a boca e pronuncia uma espécie de acordo. O outro, apesar do intimidante rosto pintado, apenas anui e gesticula em gesto de aprovação. Está feito, agora todos podem voltar para casa. Não houve muita festa, mas agora parece que há uma legítima paz envolvendo o ambiente.
Amanhã será o dia das extrações para uns e do ritual para outros. Os foliões continuarão seus ofícios floresta adentro, enquanto o séqüito nativo se reconfortará em acompanhar seu líder rumo à outro lugar. Não houve guerra, não houve luta. Não houve nada além de um acordo. Os foliões e o bando de homens seminus não entenderam direito o que se passou, mas acreditam em algo bom. Os dois líderes, no entanto, sorriem e festejam sozinhos na noite sem lua que se apresenta, até caírem no sono.
Na manhã seguinte, quando todos acordam, percebem que algo está diferente: não há nuvens no céu e nem árvores na terra. Acham logo que é brincadeira de deus ou algum tipo de sonho. Mas nada muda durante o dia inteiro e eles acabam intuindo que é tudo obra do homem, de um mesmo homem. O índio do rosto pintado percebe, então, que agora é um homem branco, e o homem branco percebe que é um índio. O interesse havia guiado os diferentes ideais por um mesmo caminho, destruindo tudo o que havia na frente. Agora não há mais mata, ideais ou diferenças, há apenas uma coisa: o homem.
Oz Iazdi
Do outro lado, outro homem empunha sua arma e agita os foliões que estão presentes. Hoje é dia de festa, e nesse lugar, onde nada acontecia, zumbe agora um assovio de desequilíbrio. Os foliões, armados com facões e rifles, marcham em uma linha tênue através da clareira pisando nos restos da mata, que agora descansa inerte no chão. O grito, semelhante ao brado do inimigo, reivindicava a posse, a terra.
Em determinado momento, como pelo desígnio de um destino antevisto, os dois grupos se encontram. A marcha é interrompida em ambos os lados. O cenário evidencia o embate, cada bando com seu líder à frente. Enquanto de um lado alguns homens seminus erguem seus braços e entoam um canto de guerra, do outro lado os personagens parecem imitá-los, de tal forma que todos se confundem. Apesar de tão antagônicos, quão iguais se parecem. Eis que há um silêncio. Os dois líderes dão alguns passos e se encontram, quase tocando seus semblantes. Seus pulmões arfantes fazem da respiração uma denuncia em causa própria. O rei dos foliões abre a boca e pronuncia uma espécie de acordo. O outro, apesar do intimidante rosto pintado, apenas anui e gesticula em gesto de aprovação. Está feito, agora todos podem voltar para casa. Não houve muita festa, mas agora parece que há uma legítima paz envolvendo o ambiente.
Amanhã será o dia das extrações para uns e do ritual para outros. Os foliões continuarão seus ofícios floresta adentro, enquanto o séqüito nativo se reconfortará em acompanhar seu líder rumo à outro lugar. Não houve guerra, não houve luta. Não houve nada além de um acordo. Os foliões e o bando de homens seminus não entenderam direito o que se passou, mas acreditam em algo bom. Os dois líderes, no entanto, sorriem e festejam sozinhos na noite sem lua que se apresenta, até caírem no sono.
Na manhã seguinte, quando todos acordam, percebem que algo está diferente: não há nuvens no céu e nem árvores na terra. Acham logo que é brincadeira de deus ou algum tipo de sonho. Mas nada muda durante o dia inteiro e eles acabam intuindo que é tudo obra do homem, de um mesmo homem. O índio do rosto pintado percebe, então, que agora é um homem branco, e o homem branco percebe que é um índio. O interesse havia guiado os diferentes ideais por um mesmo caminho, destruindo tudo o que havia na frente. Agora não há mais mata, ideais ou diferenças, há apenas uma coisa: o homem.
Oz Iazdi
3 comentários:
Gostei muito desse artigo pq mostra, mais uma vez, que os interesses econômicos quase sempre passam por cima de pessoas e culturas. A famosa globalização, que massifica interesses, culturas e identidades em torno do dinheiro.
De fato, no final temos apenas o Homem. O Homem globalizado.
Não sei se foi essa a idéia do artigo, mas, na minha opinião, retrata muito isso.
A idéia é realmente deixar para o leitor a interpretação do texto. É uma crítica justamente à perda da cultura e a elevação do interesses econômicos e, de forma mais direta, o exemplo é a degradação da cultura índigena, que quase não existe mais em sua forma primitiva.
O texto também é uma crítica à concepção romântica do índio e sua imagem de inocência, de povo dominado. Essa é uma concepção ultrapassada, visto que há vários dados e relatos que mostram que os "indiozinhos" não têm nada de inocentes.
Sim, aquela idéia de indigenas não contaminados culturalmente é uma farsa. Só o fato de usarem shorts e camisetas em seus rituais mostra isso.
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